quinta-feira, outubro 19, 2006

Supere o medo e viva, ou opte por "sobreviver"...

Pessoas são difíceis
Acho que há mais de 10 anos escuto repetidamente a frase "Pessoas são difíceis!", e isso todos nós sabemos, então por que temos que ficar repetindo? Para justificar nossos fracassos? A questão hoje deveria ser mais na linha de "O que me torna uma pessoa difícil?", ou, "O que posso fazer para ser uma pessoa mais fácil?". Não tenho aqui a pretensão de responder essas perguntas, mas através do que tenho observado em equipes com as quais trabalhei nos últimos anos, e mesmo em pessoas do meu convívio, acho que tenho pistas para o caminho de respondê-las, pelo menos para o lado profissional das pessoas.

Uma simples pergunta
Há poucos dias, em uma conversa de boteco, um colega me perguntou: -Alexandre, se você não fosse da área de software, o que você faria? Duas atividades que gosto muito de fazer passaram imediatamente pela minha cabeça, então respondi: - Lecionaria ou escreveria! Ele disse: -Tudo bem, mas em que área, sobre o que lecionaria ou escreveria? Fui tomado por uma sensação diferente, algumas coisas da adolescência me vieram à cabeça: seria um surfista profissional, um vocalista de uma banda de rock, um repórter do National Geographic, enfim...essas coisas que passam na nossa cabeça nessa fase da vida. Por fim, tive que me contentar em responder algo que não gostei nem um pouco de dizer: - Definitivamente, não sei!

Uma noite sem dormir
Como tenho trabalhado muito com pessoas nestes últimos anos, tenho procurado estudar e refletir muito sobre este polêmico tema. Aquela conversa de boteco não saía da minha cabeça, eu não conseguia mesmo imaginar o que eu poderia fazer fora da minha profissão...conseguia ver várias coisas que eu não gostaria de fazer e, o que não é novidade nenhuma para quem me conhece, a última coisa que eu gostaria de fazer seria trabalhar no funcionalismo público. Por fim, me contentei em ficar sem resposta, e agradecer a Deus por, logo aos meus 15 anos de idade, ter me colocado nesta área que, definitivamente, mudaria a minha vida, e então, meio sem querer, cheguei ao ponto: Quantas pessoas neste mundo tiveram a sorte que eu tive? De, desde novo, se identificar por inteiro com uma carreira? Definitivamente, são poucos!

Uma outra pergunta
"Como eu seria se, ao invés de atuar na minha carreira, atuasse em uma outra qualquer?" Bem, com certeza eu seria um profissional menos apaixonado, estudaria menos - ou como é na maioria desses casos - não estudaria, consequentemente seria menos competente - pois para mim estudo e competência estão diretamente ligados - enfim...seria com certeza uma pessoa mais difícil no meu ambiente de trabalho. Vale ressaltar que, quando eu digo pessoa difícil, não estou me referindo unicamente às típicas mal-humoradas e ranzinzas, mas também - e talvez principalmente – às pessoas que não conseguem desenvolver seu trabalho com competência, que estão sempre procurando algum "culpado" para algo que deu errado, atrapalhando a produtividade de um grupo. Por um momento me imaginei, sentado atrás de uma escrivaninha com plaquinha de metal escrita "Patrimônio do Estado", cheia de carimbos e almofadas, e papéis..muitos papéis, ao lado um grupinho de pessoas "conversando" sobre quando o governo iria dar um novo "reajuste salarial", aaarrgghhhhhh!! É, com certeza eu seria uma pessoa mais difícil.

A chave
Então, reunindo as idéias: "Pessoas são mais difíceis no trabalho quando atuam em algo que não lhes dá prazer". Levando o pensamento adiante, e esquecendo um pouco o foco, lembrei de quantas pessoas devem me achar louco quando digo que tenho prazer no meu trabalho, e é importante que se frise que quando digo trabalho não estou me referindo simplesmente a uma empresa, mas sim à carreira. É isso! Quantas pessoas eu conheço que concordam comigo quanto ao prazer em seu trabalho? Uma, duas...meia dúzia. Agora, quantas passam a semana inteira reclamando do seu trabalho? Dez, vinte, trinta...É isso! É por isso que nossos ambientes de trabalho estão infestados de crises, fofocas, reclamações, disputas, ego, etc.

A escolha
Bom, então o problema está na escolha da profissão. Pensei: -Como as pessoas escolhem sua profissão? Na maioria das vezes, influência. Nós, seres humanos, somos naturalmente influenciados, seja na música que ouvimos, no lugar que freqüentamos, no carro que compramos, enfim, quase sempre somos influenciados por algo ou por alguém. Isso pode ser bom, desde que saibamos avaliar até onde aquilo está sendo escolhido para atingir um objetivo próprio, e até onde para atender à expectativa de alguém. Ronald Gross citou com muita sabedoria em À maneira de Sócrates: "Tal como Sócrates, precisamos nos libertar das expectativas dos outros e descobrir por nós mesmos o que efetivamente viemos fazer no mundo".

O medo
Sabemos que nem sempre as influências são as melhores, ou feitas da forma correta, ou mesmo acontecerão. Então muitas pessoas acabam escolhendo uma profissão, carreira, por escolher, ou "porque dá dinheiro", ou sim, achando que é a escolha certa. No entanto, mais na frente, começa a sentir os sintomas da escolha errada, cadê o prazer? E aí já vimos o que acontece, a pessoa passa a se tornar, dia após dia, uma pessoa "mais" difícil. Aí vem a vontade de mudar...mas mudar para onde? para qual caminho? E agora?

Superando o medo
Seria muita pretensão de minha parte querer responder isso. Mas o que penso é que a pessoa, enquanto der - e vamos ser justos - nem sempre dá, não pode desistir de buscar o prazer no trabalho, seja buscando uma carreira em outra área, ou trocando de emprego, sei lá. Tem que superar esse medo de mudanças que nós, humanos, temos. Por quê? Raciocine comigo, um profissional trabalha em média 160 horas por mês, o que equivale a 1.920 horas por ano. Então, levando em consideração uma jornada de 8 horas diárias de trabalho, nós trabalhamos 240 dias por ano. Quer mais? Vamos lá, em 40 anos nós teremos que trabalhar 9.600 dias, isso dá mais de 26 anos de trabalho. Conclusão, um terço de sua vida (em média) será vivida sem prazer, com queixas e reclamações...e pior, esse terço está posicionado exatamente na fase intermediária da vida, que é a qual - teoricamente - estamos mais aptos a aproveitá-la.
Portanto, sugiro que descubra o que profissionalmente lhe dá prazer, se não der, tente descobrir como ter prazer com o que você faz, se não der..."sobreviva" por 26 anos da sua vida e fique rezando para chegar o dia da aposentadoria.